Uma investigação do Gaeco revelou um esquema audacioso que utilizava atestados médicos falsos para libertar criminosos de alta periculosidade em Itajaí. A operação "Efeito Colateral", deflagrada nesta terça-feira em apoio à 8ª Promotoria de Justiça, aponta que pelo menos 22 detentos — a maioria integrantes do Primeiro Grupo Catarinense (PGC) — foram beneficiados. Foram cumpridos quatro mandados de prisão e 35 de busca e apreensão em cidades de Santa Catarina e do Paraná.
Durante uma das abordagens, um investigado atirou contra os policiais. Segundo o coordenador estadual do Gaeco, promotor Wilson Paulo Mendonça Neto, foram mais de cinco disparos, mesmo após a equipe se identificar. Um policial sofreu ferimento leve e passa bem, enquanto o atirador foi preso em flagrante logo após o atentado.
A fraude era capitaneada por uma advogada criminalista que buscava "clientes" no sistema prisional. Ela atuava em conjunto com um médico e sua secretária, que negociavam não apenas os valores, mas até qual doença seria inventada no papel. Entre os diagnósticos usados para conseguir a prisão domiciliar estavam, por exemplo, casos de hemorroidas graves.
As investigações começaram em setembro de 2025 e revelaram que o grupo discutia se a doença escolhida era compatível com a idade do preso para não levantar suspeitas. Os valores das propinas eram divididos entre a advogada, o médico e a secretária da clínica.
O golpe foi descoberto após o setor de saúde do Presídio da Canhanduba notar que os laudos particulares eram totalmente diferentes dos exames feitos pelo SUS na unidade. "Identificamos um modus operandi onde os diagnósticos não coincidiam", explicou a secretária de Estado de Justiça, Danielle Amorim Silva.
Nesta terça, dentro das celas da Canhanduba, policiais penais fizeram uma revista minuciosa e apreenderam smartwatches. Danielle explicou que os relógios funcionam como celulares e são difíceis de encontrar por serem pequenos, facilitando a comunicação irregular. Também foram encontrados manuscritos que comprovam a ligação dos advogados com a facção e a venda de benefícios judiciais.
A promotora Bianca Andrighetti Coelho afirmou que a maioria dos beneficiados integra o crime organizado. A investigação agora deve determinar se o médico e a advogada também faziam parte da facção. Todo o material apreendido será periciado pela Polícia Científica para identificar outros envolvidos.
A Justiça deve determinar o retorno imediato de todos os beneficiados pelo esquema para o regime fechado. Os mandados ocorreram em 11 cidades, incluindo Itajaí, Balneário Camboriú, Navegantes, Barra Velha, Itapema, Porto Belo e municípios no Paraná. O Gaeco analisará os dados para delimitar a participação de cada investigado.
Polícia Penal acompanhava caso desde 2025
Em nota, a Secretaria de Justiça e Reintegração Social (Sejuri) destacou que a Polícia Penal teve papel importante na operação. Segundo a pasta, a Diretoria de Inteligência já acompanhava indícios de irregularidades desde 2025 e produziu informações que ajudaram no avanço da investigação.
A operação em Itajaí teve cerca de 70 policiais penais na unidade prisional, além de 10 agentes que atuam junto ao Gaeco. A secretaria destacou que a integração entre as forças de segurança foi essencial para avançar na investigação.
Camila Diel; jornalista no DIARINHO; formada pela Univali, com foco em jornalismo digital e produção de reportagens multimídia.
