Entre as braçadas, os treinos e os desafios de cada competição, o nadador paralímpico Lucas Possato de Liz, de 20 anos, vem construindo uma trajetória que une esporte, superação e pertencimento. Morador de São José desde sempre, o atleta encontrou na natação não apenas uma modalidade esportiva, mas uma forma de transformar a própria vida e, hoje, carrega também o orgulho de representar o município nas principais competições.

A história de Lucas com a natação começou ainda na infância, por volta dos seis ou sete anos, durante o período de reabilitação após um acidente. Na época, a piscina fazia parte do processo de recuperação, mas o jovem ainda não imaginava que aquelas primeiras braçadas poderiam levá-lo, anos mais tarde, ao esporte de alto rendimento.

Depois de experimentar outras modalidades e passar um período afastado das piscinas, Lucas retomou as aulas aos 13 anos. Foi quando seu técnico, Júlio, percebeu seu potencial e apresentou ao jovem um novo caminho: a natação paralímpica.“Meu técnico me convenceu a nadar e falou que eu tinha potencial para me tornar um atleta profissional”, recorda Lucas. A partir dali, a natação deixou de ser apenas uma atividade e passou a fazer parte do projeto de vida do atleta.

São José como parte da conquista Antes de representar São José, Lucas competia por Florianópolis. No fim de 2022, conheceu melhor o trabalho desenvolvido pelo município e os incentivos oferecidos aos atletas, entre eles o Programa Bolsa-Atleta e a estrutura do Time São José.

A primeira competição oficial defendendo o São José aconteceu em 2023. Desde então, o município passou a fazer parte de uma trajetória marcada por competições estaduais e nacionais, pódios e novos objetivos.

Mais do que o incentivo financeiro e esportivo, porém, Lucas encontrou no município um sentimento que considera especial: o de fazer parte de uma equipe. “A principal característica que me agrada em São José é a união. É chamar o grupo de time, algo incomum que vejo em outros lugares”, afirma.

Segundo o atleta, esse espírito ultrapassa os limites da própria modalidade. “Geralmente o time são as pessoas que treinam juntas e vão competir. Mas em São José existe uma união geral, estamos juntos. Não existe um grupo grande de natação aqui e, mesmo assim, fui acolhido por atletas e técnicos de outras modalidades.”

Para o secretário de Esportes e Lazer de São José, Claiton Ribeiro, a trajetória de Lucas representa justamente o propósito de uma política esportiva que busca oferecer condições para que os atletas possam desenvolver seu potencial.“O Lucas é um exemplo de que o esporte transforma. São José acredita nos seus atletas e trabalha para criar oportunidades para que eles possam treinar, competir e sonhar cada vez mais alto. Quando um atleta josefense chega a uma competição nacional, ele não leva apenas uma medalha ou um resultado: leva o nome da nossa cidade e inspira muitos outros jovens.”

O secretário adjunto de Esportes e Lazer, Luciano Heck, destaca que o investimento no esporte também está relacionado à formação e à construção de trajetórias.

“Cada atleta tem uma história diferente, e a do Lucas mostra o quanto o esporte pode contribuir para a autonomia, a disciplina e a confiança. O Time São José é essa grande união que ele mesmo destaca: atletas, técnicos, famílias e profissionais trabalhando juntos para que nossos representantes tenham cada vez mais condições de evoluir.”

A medalha que confirmou o caminho Ao longo da carreira, Lucas acumulou experiências importantes em competições estaduais e nacionais e também participou do processo classificatório para o Parapan de Jovens, em 2024.

Mas existe uma conquista que ocupa um lugar especial na memória do nadador: a primeira medalha em um Campeonato Brasileiro.

Depois de anos tentando alcançar a classificação para a competição nacional, Lucas finalmente conseguiu. E não apenas participou. Terminou em terceiro lugar justamente em sua prova favorita.

“Depois de anos tentando classificar para essa competição, ela parecia ser um passo importante na carreira. Na primeira vez que consegui chegar lá, ainda conquistei um terceiro lugar na minha prova favorita. Foi definitivamente o maior momento para mim.”

A medalha representou a confirmação de que os anos de treinamento, dedicação e persistência estavam levando o atleta na direção certa.

Quando o desafio vai além do cronômetro Nem todas as histórias importantes são escritas no pódio.Lucas também guarda na memória um Campeonato Brasileiro Escolar disputado em um momento especialmente difícil. Poucos dias antes da competição, enfrentou uma forte gripe, precisou procurar atendimento médico e iniciou tratamento.

Mesmo sem estar recuperado, viajou e decidiu competir. Passou toda a semana do evento ainda se recuperando e só voltou a se sentir completamente bem dias depois.

Experiências como essa ajudaram a construir o atleta e também o jovem que hoje precisa conciliar a rotina esportiva com a faculdade e as responsabilidades da vida adulta.

O esporte que ajudou a construir um projeto de vida Lucas acredita que sua história poderia ter seguido um caminho completamente diferente se não fosse o esporte.“Sempre fui alguém muito ativo e gosto de praticar esportes no geral, mas nunca pensava em ser um atleta de fato. Acredito que, se não fosse pelo acidente e por ter que praticar algumas atividades diferentes e mais especializadas, eu não teria tido acesso à ideia de me tornar um atleta.”

Desde os 13 anos inserido no esporte competitivo, ele reconhece que a experiência foi fundamental também para sua formação pessoal.

“A prática do esporte profissional me direcionou muito na vida. Estar desde os 13 anos ligado a algo nesse nível me preparou, me dando muito mais responsabilidade, autonomia e disciplina para tudo.”

Hoje, o desafio é encontrar o equilíbrio entre treinos, competições e estudos. Se durante a escola havia mais tempo disponível para a rotina esportiva, a chegada à faculdade trouxe novas responsabilidades e exigiu adaptações.Mesmo assim, a piscina continua sendo um lugar onde Lucas sabe exatamente o que busca.

O sonho que ainda falta realizar Depois de chegar perto por duas vezes, o nadador josefense tem uma meta muito clara: conquistar a classificação para uma competição internacional.“Conseguir finalmente classificar para uma competição internacional. Nas outras duas vezes cheguei tão perto, mas não foi. Espero que na próxima classificação dê certo.”

O planejamento já está traçado. Lucas pretende concluir as últimas competições de 2026 e iniciar uma preparação ainda mais forte para a próxima temporada.“Quero me preparar para o ano que vem, tentar ir além dos meus limites e conseguir uma classificação internacional.”

As referências também são grandes. Na natação brasileira, nomes como César Cielo e Daniel Dias fazem parte de suas inspirações. Mas, para Lucas, muitas vezes a maior motivação está bem mais próxima.“Sempre fui muito competitivo. Minhas grandes inspirações e motivações sempre foram quem esteve do meu lado, tanto colegas de treino quanto rivais. Olhar para o lado enquanto estou nadando, ver alguém na minha frente e pensar que dá para passar sempre foi minha grande motivação.”

É uma frase que traduz a essência de sua trajetória: sempre existe uma nova marca para alcançar, um limite para superar e mais uma braçada para dar.

Um conselho para quem está começando Depois de anos entre treinos, viagens, classificações e competições, Lucas também tem uma mensagem para crianças e adolescentes que estão descobrindo o esporte.“A infância e a adolescência são os melhores momentos para fazer de tudo e experimentar. Não se prenda. Procure o que você gosta e não ligue para os outros. Um dia a vida adulta chega e não vai ter mais tanto tempo livre.”

Fora da piscina, o atleta deixa o cronômetro de lado. Gosta de estar com os amigos, sair, comer alguma coisa diferente ou até descobrir um jogo novo no computador.“O importante é ter alguém junto e algo nem um pouco sério para fazer.”

Dentro da água, entretanto, a descontração dá lugar à concentração e à competitividade.

A próxima meta está definida. Depois de chegar perto duas vezes, Lucas Possato continua treinando para conquistar aquilo que ainda falta em sua trajetória.

E, enquanto o sonho internacional não chega, cada treino representa mais uma etapa do caminho.

De São José para o Brasil e, quem sabe, em breve, para o mundo, Lucas segue transformando cada braçada em uma nova oportunidade de ir além.