Brusque consolidou sua história como polo têxtil por meio do trabalho de milhares de costureiras e costureiros que, ao longo das décadas, ajudaram a movimentar fábricas, facções e pequenos ateliês.
Parte da identidade econômica e social da cidade foi construída, e literalmente costurada, por esses profissionais.
No Dia da Costureira, celebrado nesta segunda-feira, 25, o jornal O Município apresenta a trajetória de duas mulheres que encontraram na profissão mais do que uma fonte de renda.
Hoje, ambas vivem da costura e enxergam no ofício um caminho de autonomia, sustento e permanência longe da terra natal.
Para Rozilene Estumano Barbosa, 39 anos, a costura surgiu como consequência de um recomeço inesperado.
Natural de São Sebastião da Boa Vista e moradora do bairro Limoeiro desde 2018, ela trabalhou durante anos como promotora de vendas, rotina que exigia percorrer mercados, organizar estoques e lidar com trabalho pesado.
Apesar do desgaste, o interesse pela moda existia desde cedo. A avó era costureira e o pai comerciante, convivência que despertou nela o gosto por roupas e pelo universo das vendas. O sonho era ter uma loja própria.
Há cerca de cinco anos, começou a estudar costura, participando da Escola de Costura da Associação das Micro e Pequenas Empresas de Brusque e Região (AmpeBr) e de cursos de modelagem e consultoria de estilo. O processo exigiu aprendizado técnico e paciência.
“O início foi desafiador. Cada peça pronta era uma conquista”.
A mudança definitiva veio após um problema de saúde no ano passado. Lene sofreu uma trombose intestinal, passou por cirurgia de grande porte e ficou meses em recuperação, impossibilitada de voltar ao trabalho pesado.
Foi durante esse período, com apenas uma máquina instalada no quarto, que decidiu transformar a costura em profissão e criar a própria marca.
"Eu entendi todo aquele processo como um sinal para correr atrás do meu sonho. Eu senti que precisava olhar mais para os meus sonhos".
As primeiras peças deram lugar a encomendas e clientes fixos. Hoje, ela trabalha em casa produzindo roupas masculinas, femininas e infantis. O espaço ainda é improvisado, mas os planos são maiores.
"A experiência anterior na área comercial acabou se tornando vantagem para mim. Eu sei costurar, modelar e também sei vender”.
Segundo ela, a costura trouxe renda, autonomia e uma rotina menos desgastante. Algumas peças produzidas por Lene já chegaram a clientes fora do Brasil, reforçando um antigo sonho que voltou a ganhar forma.
“É muito bom ver as pessoas vestindo minha roupa. Isso me mantém e ajuda a manter minha família”.
Além da marca que administra em Brusque, ela planeja abrir uma loja física no Pará e, futuramente, também em Santa Catarina.
"Só tenho a agradecer aos apoios que recebi, ao curso que fiz e a essa cidade que me permitiu voltar a seguir os meus sonhos".
Se para Lene a costura surgiu como recomeço, para Maria Eliziaria Barros ela começou ainda na infância.
Aos 65 anos, moradora da Ponta Russa e natural de Capitão Poço, Maria aprendeu a costurar aos cinco anos, na antiga máquina da avó. Aproveitava os momentos em que a dona da casa saía para experimentar a máquina de pedal e aprender sozinha. “Eu aprendi assim”.
A infância foi marcada por dificuldades financeiras e pela perda precoce da mãe, quando tinha três anos. Com poucas peças de roupa para usar, passou a transformar peças usadas em vestimentas próprias.
“Quase não tinha roupa pra vestir. Então eu dizia que ia aprender a fazer roupa pra mim. Da necessidade nasceu um amor pelo ato de costurar, pelo ato de poder fazer algo para mim, algo que eu praticamente não tinha”.
O improviso virou habilidade. Mais tarde, fez curso básico no Pará, participou de uma cooperativa e conciliou a costura com o trabalho como doméstica, sem abandonar o desejo de viver do próprio talento.
“A costura era só algo para me manter conectada com esse sonho, não vivia dela. Meu trabalho mesmo era de doméstica, foi assim durante quase toda minha vida”.
Ela sonhava em estudar moda e se tornar estilista, oportunidade que nunca conseguiu alcançar financeiramente. Ainda assim, seguiu aprendendo e trabalhando. “Podia ser nos tombos e barrancos, mas eu nunca desisti”.
Antes de chegar a Brusque, em 2016, Maria passou pelo Rio de Janeiro, onde trabalhou em ateliês confeccionando fantasias, vestidos temáticos e biquínis. A experiência ampliou sua técnica e consolidou a profissão.
Ao chegar a Brusque, a profissão de doméstica passou a ser trocada pela costura de fato pela primeira vez. Porém, a adaptação na cidade trouxe outro desafio.
Acostumada a produzir peças completas, estranhou o modelo das facções, onde as roupas já chegam cortadas e o trabalho é dividido por etapas.
Mesmo assim, aprendeu o novo sistema, trabalhou em facções e chegou a se tornar sócia de uma pequena produção. O negócio acabou encerrado em meio às dificuldades econômicas e à pandemia.
Depois vieram novos obstáculos. Maria teve que deixar a costura de lado novamente para trabalhar em uma empresa de outro setor, em jornada de madrugada, e se deslocava de bicicleta no "frio brusquense", realidade muito diferente do clima paraense.
Mais tarde, sofreu uma queda em casa e iniciou uma sequência de tratamentos e cirurgias. Apesar das limitações médicas, não abandonou a costura.
Hoje, trabalha em casa produzindo pijamas, peças sob medida e consertos, enquanto aguarda aposentadoria e sonha em ampliar o ateliê. “O negócio é o investimento que falta”.
Longe do Pará, carrega a saudade da família numerosa e dos encontros de fim de ano, mas também construiu novos laços em Brusque, onde os domingos costumam reunir filhos, nora e amigos ao redor da mesa.
“Graças a Deus sempre tem sempre alguém almoçando comigo”.
Entre tecidos, máquinas e planos ainda em construção, Maria e Lene seguem costurando trajetórias diferentes, mas atravessadas pelo mesmo fio: a tentativa diária de transformar trabalho em independência e futuro.
""Eu entendi todo aquele processo como um sinal para correr atrás do meu sonho. Eu senti que precisava olhar mais para os meus sonhos"."
""Só tenho a agradecer aos apoios que recebi, ao curso que fiz e a essa cidade que me permitiu voltar a seguir os meus sonhos"."
"“A costura era só algo para me manter conectada com esse sonho, não vivia dela. Meu trabalho mesmo era de doméstica, foi assim durante quase toda minha vida”."
