A Villa Germania, maior produtora e exportadora de carne de pato, codorna e frango orgânico do Brasil, tem planos ambiciosos para a Europa. Se tudo correr como planejado, a expectativa é que, até 2028, o consumidor europeu, especialmente o francês, possa comer o tradicional magret de pato brasileiro.

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A companhia, que tem duas unidades de produção em Santa Catarina e é controlada pela holding XWR Investimentos, quer mandar 5 mil toneladas de seus patos por ano para o Velho Continente, quando o acordo já estiver vigorando. Como todo tratado comercial, isso ainda demora, mas a empresa sabe que precisa se preparar desde já.

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Com uma extensa experiência internacional, a Villa Germania já envia pato e seus itens gourmet para o Oriente Médio, Filipinas, Japão e México, entre outros países. Mesmo assim, a nova perspectiva para a Europa empolga Marcondes Moser, CEO da companhia:

—A UE é estratégica para crescermos. Hoje, mandamos para lá apenas miúdos e carcaça de pato para fabricação de alimentos para pets. Nosso plano é exportar 5 mil toneladas de carne de pato por ano para consumo humano.

O otimismo dele se repete entre outros exportadores do agronegócio brasileiro, de fruticultores a processadoras de carne, numa amostra das oportunidades que o acordo UE-Mercosul abre para um dos setores mais competitivos do Brasil — daí a resistência dos agricultores franceses que vinha atrasando o desfecho.

Com o corte de tarifas ou a ampliação de cotas de exportação previstos pelo acordo ao longo de 15 anos, o agro será o maior beneficiado no Brasil. É o que diz um estudo do Ipea, que apontou carnes e óleos vegetais como o de soja como os mais promissores.

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Com o acordo, o agronegócio teria um aumento de exportação de US$ 6,2 bilhões, até 2040. No ano passado, a União Europeia comprou US$ 25 bilhões do campo brasileiro.

— No agronegócio, deve haver um aumento de produção de 2%, o equivalente a cerca de US$ 11 bilhões — estima Fernando Ribeiro, coordenador de estudos da Diretoria de Comércio Internacional do Ipea, e professor da PUC-Rio, que destaca também o impacto geopolítico da aproximação de duas regiões que formam um mercado de 700 milhões de pessoas em plena guerra comercial entre EUA e China.

Considerando todos os setores da economia envolvidos no acordo, o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é de 0,46%, uma adição de US$ 9,3 bilhões. O Brasil teria o maior ganho relativo no PIB, bem maior que os da UE (0,06%) e dos demais países do Mercosul (0,20%, em média). O acordo trará ainda, segundo o Ipea, alta de 1,19% nos investimentos europeus no país, além de um ganho de 0,41% no salário real.

A Villa Germania já vende penas de pato para italianos confeccionarem travesseiros. O aumento da exportação da carne da ave para a Europa — sem contar a de codorna e frangos orgânicos — pode adicionar R$ 130 milhões anuais à receita da empresa, hoje da ordem de R$ 200 milhões.

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Para isso, será preciso investir R$ 25 milhões em adaptações. A unidade de Indaial (SC), onde são criados e abatidos os patos e que já está habilitada para mercados exigentes como o japonês, precisará ser homologada pelos técnicos europeus.

O CEO planeja ajustes no processo de produção e investir na construção de um laboratório de análises na unidade e de um armazém no Porto de Itajaí (SC), melhorando a logística de embarque. A capacidade de abate pode subir das atuais 10 mil cabeças por dia para até 80 mil, o que abasteceria a Europa sem prejuízo de outros mercados internacionais e dos consumidores brasileiros.

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Na carne de porco, a oportunidade é enorme. O acordo vai criar, pela primeira vez, uma tarifa preferencial para o Mercosul. A cota final prevista é de 25 mil toneladas anuais, com tarifa de € 83 por tonelada, valor cerca de 60% inferior ao aplicado fora da cota.

Ricardo Santin, presidente executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), diz que as exportações de carne de porco para a Europa são ínfimas. Por causa da ractopamina, estimulante de crescimento adicionado à ração animal, europeus só compram carne livre dessa substância, que nem aparecem na estatística.

— Vamos trabalhar para abrir o mercado europeu, que é muito importante, apesar das salvaguardas — diz Santin.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (Abiec), o acordo viabilizará a venda de 99 mil toneladas de carne bovina do Mercosul para a Europa por ano, tarifadas inicialmente em 7,5%. O Brasil tem hoje uma cota para cortes nobres, que permite exportar até 10 mil toneladas por ano com uma tarifa de 20% que será zerada pelo acordo.

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A Minerva Foods já exporta carne bovina in natura e processada, além de subprodutos, para o mercado europeu a partir de unidades industriais habilitadas nos quatro países do Mercosul, mas, em nota, disse esperar aumento da competitividade de seus produtos com o acordo para alcançar novos mercados no bloco europeu.

Dono da Granja Faria, a maior do país (4,8 bilhões de ovos por ano), Ricardo Faria já habilitou uma unidade de Minas Gerais para exportar ovos para a Europa. A cota prevista pelo acordo é de 3 mil toneladas de ovos processados e mais 3 mil de albumina (proteína da clara).

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O empresário, que controla a Global Eggs, holding com unidades na Espanha e nos EUA, habilitou unidades no Uruguai para vender aos europeus no âmbito do acordo. O ovo do Brasil enfrentava barreiras sanitárias na UE desde 2018, mas desde o fim de 2025, unidades têm sido habilitadas individualmente.

— O acordo abre uma possibilidade grande para as exportadoras aumentarem seu portfólio. Nós nos antecipamos para habilitar plantas. Quem for mais rápido, tiver a habilitação na mão, vai surfar mais rápido essa onda — disse Faria, conhecido como o “rei do ovo”.

Ele lembra que o Brasil bateu recorde na exportação de ovos em 2025 (40 mil toneladas, salto de 121% em relação a 2024) com a crise do produto nos EUA. Mas, com o tarifaço de Donald Trump de 50%, as vendas caíram muito.

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Agora, a Europa pode ocupar esse espaço, inclusive na venda de produtos de maior valor agregado, como ovos férteis (com embrião). No entanto, Faria considera pequena a cota do acordo, que será dividida entre os outros países do Mercosul: Argentina, Paraguai e Uruguai.

O tarifaço derrubou a venda de uvas da Agrivale para os EUA em 2025. De Petrolina (PE), a maior distribuidora de uva no mercado interno é a terceira exportadora da fruta do país. Produz 25 milhões de quilos por ano, sendo 65% uvas verdes, 20% pretas e 15% vermelhas. Só 25% do total vão para fora. E dessa exportação, um quinto vai para a Europa.

Isso mostra espaço para aumentar a exportação, diz Aníbal Campos, gerente-geral de Comércio Exterior da Agrivale, para quem a UE deve superar mercados considerados estáveis como o Reino Unido:

— Com tarifas que variam de 8% a 14% sobre o produto, o retorno do exportador é afetado. Isso fez o mercado europeu se tornar secundário. Mas, com os 50% nos EUA e o acordo com a UE que vai eliminar tarifas sobre a uva em breve, a Europa se torna mais atrativa.

Ele estima potencial de R$ 33 milhões em aumento de vendas da Agrivale para a Europa e menciona o acesso direto a redes de supermercados europeus como diferencial. O acordo pode tornar a uva brasileira mais competitiva que a do Peru, que já é isenta na UE e é a principal rival na Europa.