Na passada do cavalo crioulo, a pequena Laura, de quatro anos, mantém uma relação com o animal que vai além da montaria. Ali tem corpo, mente e emoções trabalhando para o equilíbrio e a confiança. Perto dela, Samuel, de 11 anos, em outro cavalo, segue outro circuito, mas experimenta a mesma interação, num ritmo que respeita sua autonomia.

As crianças são duas das 120 atendidas no projeto de equoterapia gratuita de Itajaí. A atividade pode parecer, mas não se confunde com aula ou treino de equitação com pretensões competitivas. Na equoterapia, saúde e educação se unem numa relação de aprendizado, respeito e conhecimento entre pessoas e animais. Por isso, quem monta não é paciente nem aluno, mas participante.

O projeto municipal foi retomado em Itajaí com quase o dobro das vagas de 2025 e hoje atende um número recorde de crianças e adolescentes, com previsão de ampliação pra 2027. A procura pelo serviço, oferecido de graça pela Secretaria de Assistência Social de Itajaí, com recursos do Fundo da Infância e Adolescência (Fia), tem sido alta, com mais de 700 pessoas na lista de espera, diante dos resultados alcançados.

Os participantes têm entre dois e 17 anos. O projeto atende principalmente crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), atraso no desenvolvimento e deficiências físicas e múltiplas. A equoterapia usa o contato e o movimento do cavalo como parte das atividades pro desenvolvimento das crianças. Os benefícios são percebidos logo após as primeiras sessões.

As famílias reconhecem os avanços. A mãe de Laura, a empresária Sabrina Bonomini, de 37 anos, diz que a filha está há dois meses no projeto. A pequena tem atraso de fala, com grau 2 de autismo, e também faz fonoterapia. “Com as terapias, mais a equitação aqui, está ajudando muito o desenvolvimento dela. Tanto coordenação, equilíbrio e lateralidade como na parte de fala, que também está ajudando bastante”, conta.

Sabrina comenta que a filha adora as atividades no rancho e é a primeira a se preparar nos dias de sessão. “Só a relação da criança com o cavalo já é muito bom”, completa. A autônoma Cássia Zimmermann, de 47 anos, mãe de Samuel, destaca que a equoterapia trouxe efeitos notáveis na mobilidade e no equilíbrio do filho em apenas dois meses de atividades.

“Ele tem TEA nível 1, mas eu noto que ele tem melhorado muito, muito mesmo, e eu só tenho a agradecer a esse projeto maravilhoso que vem mudando a vida de muitas crianças, inclusive a do meu filho”, destacou.

O projeto é tocado pela filial em Itajaí da Associação Amigos da Equoterapia de Biguaçu (AAEB), no rancho La Cautivar, no bairro Brilhante 1. As atividades são planejadas de acordo com cada participante. Durante as sessões, que duram meia hora, são trabalhados aspectos como equilíbrio, coordenação motora e postura, além de atenção, comunicação, autonomia e interação social.

O atendimento conta com profissionais de fisioterapia, psicologia e equitação. As sessões são feitas uma vez por semana, com acompanhamento da evolução dos participantes e orientações às famílias pelos profissionais do projeto. A equoterapia usa o cavalo como recurso terapêutico pra diversos estímulos, que contribuem pro desenvolvimento físico, emocional e cognitivo.

O fisioterapeuta Marcelo Martins explica que os movimentos ajudam no fortalecimento muscular e também estimulam o andar. “As crianças com TEA, que são cerca de 90% das crianças atendidas no projeto, têm o andar na ponta dos pés, aí o cavalo dá um estímulo pra melhorar a marcha”, comenta.

O efeito é um dos princípios da equoterapia. Marcelo lembra que, cientificamente, a marcha dos cavalos se iguala em 95% ao andar de uma pessoa. Na prática, o movimento do animal ao se deslocar é transmitido ao corpo do cavaleiro num estímulo parecido com o caminhar humano. Mas os benefícios não param por aí.

“O cavalo dá em torno de 700 estímulos por minuto à criança. Então, em 30 minutos vai gerar cerca de 20 mil estímulos. A terapia que dá os maiores estímulos, tanto sensoriais, de força muscular, de coordenação, equilíbrio, foco e atenção é a equoterapia”, destaca o fisioterapeuta. As melhoras começam a ser percebidas pelas famílias entre a sexta e a oitava sessão.

Além das atividades no rancho, as crianças cavalgam na parte externa, trabalhando habilidades como atenção ao ambiente e estímulos sonoros, incluindo o canto dos pássaros. Elas também aprendem o manuseio das selas e rédeas e a cuidar dos animais. “Equoterapia não é só montar no cavalo. É legal também aprender como trabalhar com o cavalo e como é sua manutenção”, diz o equitador Gonzalo Juarez.

No Brasil, a equoterapia ainda não foi incluída entre os tratamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), mas enquanto o projeto avança no Congresso Nacional, alguns estados e municípios tocam iniciativas que bancam o serviço. Em Itajaí, o coordenador do projeto, Murilo Fernandes, destaca o apoio da prefeitura para ampliar e fortalecer a parceria. O cadastro e a consulta de vagas são feitos diretamente com a associação.

“Para a AAEB, a decisão demonstra a sensibilidade e o compromisso da atual administração municipal com as pessoas com deficiência e com o fortalecimento das políticas públicas de inclusão”, afirma. Ele frisa que o acesso às vagas é público e transparente. Sempre que novas inscrições são abertas, a associação divulga pelo Instagram @equoterapiaitajai, com o formulário disponível no link da bio.

O secretário municipal de Assistência Social, Leonardo Severino, adianta que as vagas serão ampliadas no ano que vem, com chamamento público pra 130 pessoas. “Recebemos o governo em janeiro de 2025 com nenhuma vaga. Em 2023, eram 80 vagas. Nós reativamos o serviço em 2025 já com recorde de 120 vagas. Nos tornamos a cidade com maior número de vagas públicas de equoterapia do estado”, ressalta.

O município também toca outras ações voltadas para pessoas com condições atípicas. Na Associação de Pais e Amigos do Autista (Ama) de Itajaí, a secretaria aumentou os atendimentos de 150 pra 250. Neste ano, a pasta também deu início ao projeto de futebol atípico, com 50 vagas para crianças atípicas que não conseguiam ter aulas no futebol padrão. Em 2027, o serviço também será ampliado.

Associação Amigos da Equoterapia de Itajaí

Rua Moisés Gamba, 347 – Brilhante 1 – Itajaí/SC

https://www.instagram.com/equoterapiaitajai/

João Batista; jornalista no DIARINHO, formado pela Faculdade Ielusc (Joinville), com atuação em midia impressa e jornalismo digital, focado em notícias locais e matérias especiais.