A corrida pelo Palácio do Planalto ganha contornos dramáticos com a campanha do senador Flávio Bolsonaro, que aposta em uma estratégia dupla: consolidar o eleitorado fiel de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto tenta conquistar aqueles que rejeitam posições extremas. Um dos pilares dessa abordagem é a diferenciação clara, como na declaração de ser “o Bolsonaro que tomou vacina”, em nítido contraste com a postura negacionista de seu genitor durante a pandemia de COVID-19. A resposta à crise sanitária, amplamente considerada um fator decisivo na derrota de 2022, é um ponto chave que Flávio tenta explorar para se desassociar, enquanto os primeiros levantamentos o colocam em empate técnico com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno, após uma rápida ascensão nas intenções de voto desde o anúncio de sua candidatura em dezembro.
Contudo, os planos do candidato do PL sofreram um revés significativo com a recente revelação de suas interações com o banqueiro Daniel Vorcaro. As informações indicam que Flávio teria cobrado aportes milionários para a produção de um filme em homenagem a seu pai, com Vorcaro supostamente tendo repassado R$ 61 milhões no ano passado de um acordo que totalizaria R$ 134 milhões. Daniel Vorcaro, atualmente preso e negociando um acordo de delação premiada, é uma figura controversa no cenário político-econômico. O senador negou qualquer ilegalidade, justificando que se tratava de um filho buscando patrocínio privado para um filme privado, sem oferecer vantagens ou intermediar negócios com o governo. Ele enfatizou que não recebeu dinheiro ou qualquer benefício pessoal no processo.
A conexão com Vorcaro se soma a um histórico de denúncias que há muito tempo assombram o pré-candidato presidencial. Entre elas, destacam-se as suspeitas de “rachadinha”, esquema de desvio de verbas parlamentares, e os alegados vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega, ambos incidentes datados de sua época como deputado estadual no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro também nega essas acusações. Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, avalia que o desafio para a campanha aumentou consideravelmente: “Flávio precisa desconstruir a rejeição dele atrelada ao sobrenome e aos casos de corrupção. Ao mesmo tempo, ele tenta construir uma imagem de gestor diferente do pai, de um Bolsonaro moderado, que tomou vacina e alguém experiente, ainda que não tenha experiência de gestão.” Sanches conclui que o caso Vorcaro surge como um “balde de água fria” nesse processo de desconstrução de imagem.
Enquanto Flávio se empenha em moldar uma versão “suave” de seu mentor político, o Partido dos Trabalhadores (PT) investe pesadamente na ideia de que “não existe Bolsonaro moderado”, argumentando que Flávio defende as mesmas agendas radicais do ex-presidente. A campanha petista tem divulgado vídeos que citam declarações polêmicas do senador, como um pedido para que os Estados Unidos bombardeiem navios na costa brasileira, e o rotula como “legítimo representante da extrema-direita carnívora e radical”. Em contrapartida, Flávio tem utilizado as redes sociais para divulgar conteúdos que buscam reforçar sua moderação, exaltando a importância do Carnaval para a economia e celebrando figuras históricas da luta pelos direitos das mulheres, como Berta Lutz, Antonieta de Barros e Maria da Penha, em uma clara tentativa de se distanciar das controvérsias e do tom de seu pai, que chegou a ironizar a Lei Maria da Penha.
Internamente, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro via uma mensagem de moderação surtir efeito, contribuindo para sua rápida ascensão em pesquisas internas e levantamentos do instituto Quaest, especialmente entre jovens, a classe média e mulheres. Entre dezembro e abril, ele conquistou nove pontos percentuais entre eleitores de 16 a 34 anos, alcançando 45% contra 38% de Lula, e subiu seis pontos na classe média (2 a 5 salários-mínimos), chegando a 44% ante 40% do atual presidente. Contudo, a pesquisa Quaest divulgada em maio, antes mesmo da repercussão do caso Vorcaro, já indicava uma pequena reversão nesses aumentos. Entre as mulheres, o crescimento foi mais modesto, de 31% para 36%, ainda atrás do petista, que marcava 45% no mesmo período, evidenciando a fragilidade de sua estratégia frente à persistência das controvérsias.
