Na manhã de 7 de maio de 2026, agentes do GAECO — o grupo anticrime organizado do Ministério Público de Santa Catarina — chegaram simultaneamente a endereços residenciais e empresariais em Blumenau, Indaial, em Santa Catarina, e Araucária, no Paraná. Eram nove mandados de busca e apreensão cumpridos antes do horário comercial. Ao fim do dia, três celulares, um notebook, dois pendrives e mais de 60 documentos estavam nas mãos dos investigadores.
O alvo era um esquema que, segundo o GAECO e a 14ª Promotoria de Justiça de Blumenau, funcionou por pelo menos dois anos e meio dentro da Prefeitura de Blumenau: servidores do primeiro e segundo escalão municipal recebiam 3% de cada empenho pago pela prefeitura à empresa Risotolândia Indústria e Comércio de Alimentos Ltda. — a fornecedora de merenda escolar para a rede municipal. Em troca, garantiram à empresa de Araucária (PR) o contrato e, depois, a proteção para mantê-lo.
A estimativa do Ministério Público é de que, entre junho de 2022 e dezembro de 2024, a propina tenha superado R$ 3,6 milhões.
Desde 1998, a Risotolândia Indústria e Comércio de Alimentos Ltda também é responsável pela merenda escolar da rede municipal de ensino de Curitiba. A ação do MPSC, porém, só foi registrada na imprensa catarinense e no jornal de Araucária O Popular.
Segundo a investigação, o GAECO identificou cinco pessoas no núcleo do esquema: três servidores do alto escalão da gestão do ex-prefeito Mário Hildebrandt (PL) e dois representantes da Risotolândia.
Os investigados são César Botelho, chefe de gabinete do prefeito que supostamente coordenava as operações e calculava os percentuais devidos; César Poltronieri, secretário da Fazenda que fornecia, em tempo real, os dados de empenhos e pagamentos destinados à Risotolândia, inclusive em períodos de férias e Ronaldo "Roni" Wan-Dall, diretor de gabinete que seria o operador logístico do esquema.
Ainda segundo o Gaeco, Carlos Gusso, proprietário da Risotolândia e Elizete Furtado, consultora da empresa, também estariam envolvidos no esquema.
O método era simples e sistemático. Assim que a prefeitura liquidava uma fatura à Risotolândia, Poltronieri sinalizava ao grupo. Wan-Dall então partia em viagem até Araucária — um trajeto de cerca de 300 quilômetros de Blumenau. Ele se encontrava com representantes da empresa, recolhia o dinheiro em espécie e voltava. Foram ao menos 25 viagens documentadas pelos investigadores entre 2022 e 2024, sempre no esquema "bate e volta".
De volta a Blumenau, o dinheiro era redistribuído em encontros discretos: na casa dos envolvidos, em supermercados e, segundo a investigação, até no estacionamento da própria Prefeitura de Blumenau.
O esquema, segundo o GAECO, começou antes mesmo da assinatura do contrato — na licitação que o originou.
Em 2022, a Procuradoria-Geral do Município recomendou o fracionamento do pregão em lotes para aumentar a competitividade e ampliar o número de participantes. Wan-Dall, então diretor de gabinete, contrariou a recomendação: defendeu internamente que o processo fosse conduzido como pregão presencial em lote único. A sugestão foi acatada.
Com o certame concentrado em um único lote de alto valor, o campo de concorrentes se estreitou. A Risotolândia venceu. O contrato foi assinado em abril de 2022, com vigência até abril de 2025, no valor de aproximadamente R$ 35,8 milhões.
A empresa, porém, não era uma recém-chegada à merenda de Blumenau. Fornecia refeições à rede municipal desde 2006 — e nos 19 anos de contrato acumulou R$ 511 milhões em pagamentos da prefeitura.
O GAECO batizou a investigação de "Arbóreo" como referência a um ingrediente de um prato — alusão ao nome da empresa investigada. Risoto de arroz arbóreo. A ironia está no fato de que a refeição que deu nome à Risotolândia é exatamente a que ela foi contratada para fornecer a 36 mil crianças da rede pública de Blumenau.
O contrato entre a Prefeitura de Blumenau e a Risotolândia foi rescindido em janeiro de 2025 — três meses antes do vencimento previsto — pela gestão do novo prefeito, Delegado Egídio, que assumiu em janeiro daquele ano.
A rescisão não foi tranquila. A Risotolândia entrou na Justiça para manter o contrato ativo. A disputa judicial se arrastou até às vésperas do início do ano letivo de 2025, quando a prefeitura finalmente formalizou contrato emergencial com outra empresa, a GEF, no valor de R$ 36,7 milhões, garantindo a merenda para os alunos.
A investigação criminal, contudo, já estava em curso. A Operação Arbóreo foi deflagrada em maio de 2026, cinco meses depois de encerrado o contrato investigado.
O GAECO enquadrou as condutas apuradas em três tipos penais: corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa. A Vara Estadual de Organizações Criminosas de Santa Catarina foi a instância que deferiu os nove mandados de busca e apreensão.
Além do material físico apreendido, os dispositivos eletrônicos serão submetidos à perícia da Polícia Científica de Santa Catarina para extração e análise de dados.
O bloqueio de ativos dos investigados, segundo reportagens publicadas na imprensa catarinense, somou R$ 3,6 milhões — valor equivalente à propina estimada.
