Com aumento de mais de 60% nos casos de feminicídio em Santa Catarina entre 2025 e 2026, um protesto silencioso tem chamado a atenção nas ruas de Itajaí. Cartazes colados em praças e logradouros do centro trazem reflexões sobre a violência contra a mulher e citam casos recentes de feminicídio no Brasil e no vale do Itajaí.

Segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SC), divulgados pelo Observatório da Violência Contra a Mulher (OVM-SC), Santa Catarina registrou 22 feminicídios entre janeiro e abril de 2026. O número representa aumento de mais de 60% em relação ao mesmo período de 2025.

Os cartazes não têm assinatura ou identificação de autoria. O texto faz críticas à naturalização da violência contra mulheres e à falta de reação da sociedade diante dos crimes. “Todos os dias, nas ruas das cidades, mulheres são destruídas”, diz um dos trechos do manifesto.

O texto também relembra casos de vítimas assassinadas por companheiros, ex-companheiros e familiares em diferentes cidades brasileiras. Entre os casos citados está o de Natália, de 16 anos, grávida de três meses, assassinada no vale do Itajaí com ao menos 80 facadas pelo pai do filho que esperava.

O manifesto ainda menciona Eloá, de 15 anos, morta pelo ex-namorado durante sequestro transmitido pela televisão, além de vítimas de feminicídio em Minas Gerais e no Paraná. Em outro trecho, o texto questiona padrões impostos às mulheres e relaciona violência doméstica, abuso e feminicídio à cultura machista. “Todos os dias, nas ruas das cidades, mulheres são construídas. Todos os dias, nas ruas das cidades, mulheres são destruídas”, afirma. Os cartazes foram vistos em praças e postes da região central de Itajaí nos últimos dias.

“Todos os dias, nas ruas das cidades, mulheres são construídas.

Mulher princesa. Mulher boneca. Mulher doce. Recatada, do lar. Mulher dócil. Muda. Morta.

Mulher, uma obra em construção: sorriso, batom, boca beijável, depiladores, hidratantes suíços, pregadores, talheres, vassoura, gelly sachê, escova progressiva inteligente, silicone, peito, bunda, coxa. 100% completa. Como você gosta. Pronta para consumo imediato.

Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Sarada. Turbinada. Preparada. Plastificada. Estuprada. Espancada. Esquartejada. Morta. Jogada pros cachorros, na lagoa, no lixo. Como você gosta?

Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.

Mulher. Ser humano do gênero feminino. Ninguém nasce mulher. Esposa. Mãe. A mulher em relação ao marido. Ser humano par.

Casar. Amar e respeitar até que a morte os separe. Cuidar. Limpar. Cozinhar. Lavar. Passar. Apanhar. Sujeitar. Sofrer. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade. Aceitar. Servir bem para servir sempre.

Apanhar. Mesmo sem vontade, compreender. Apanhar. Perdoar. Apanhar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade.

Todos os dias, nas ruas das cidades, mulheres são destruídas.

Destruir. Dar cabo de. Aniquilar. Exterminar.

A cada 90 minutos, uma mulher é assassinada no Brasil. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de ex-namorados, noivos, maridos ou companheiros.

Um kg de sal juntos. Comer o pão que o diabo amassou.

10% desses homens são agentes da segurança pública. Amar e proteger.

Conceição de Maria, 43 anos. Morta a socos pelo marido, policial militar reformado.

Osalila, 45 anos, morta por envenenamento. O marido segue em liberdade, assim como o assassino de Débora Souza, 20 anos, atendente da lanchonete Maria Bonita, na cidade de Ouro Preto/MG, onde eu moro.

Em Londrina, após recorrentes abusos, Sara Manuele da Silva, de apenas 9 anos, foi estuprada, estrangulada e abandonada em um matagal pelo padrasto, sem que eu pudesse reagir.

Eliza, 25 anos, esquartejada e jogada pros cachorros a mando do ex-amante e pai do filho dela, famoso jogador de futebol.

Claudete, 59 anos, morta e esquartejada pelo marido.

Caroline, 16 anos, morta com um tiro na nuca, na frente da família, pelo ex-companheiro.

Sem que ninguém reagisse, Eloá, 15 anos, foi morta com um tiro na cabeça pelo ex-namorado, em frente às câmeras e cercada por forte aparato policial.

Em Corinto, cidade em que minha mãe foi sistematicamente espancada pelo meu pai sem que ninguém metesse a colher, Júlia, uma senhora de 80 anos, foi morta pelo marido.

No vale do Itajaí/SC, Natália, 16 anos, grávida de três meses, foi morta pelo pai do filho dela com pelo menos 80 facadas, sem que ela, eu, você, sem que ninguém reagisse.”

Fran Marcon; formada em Jornalismo pela Univali com MBA em Gestão Editorial. Escreve sobre assuntos de Geral, Polícia, Política e é responsável pelas entrevistas do "Diz aí!"