João permaneceu praticamente quatro dias no Sul. Jorginho, dois. Tempo suficiente para provocar um verdadeiro alvoroço político na região e gerar forte desconforto dentro do PSD, justamente no momento em que o partido tenta convencer o distinto público de que o projeto eleitoral de João Rodrigues tem alguma viabilidade. O problema é que, embora o PSD tenha candidatura própria encaminhada, existe também uma engenharia política em construção envolvendo MDB e a Federação União Progressista — fruto da aliança nacional entre Progressistas e União Brasil. E foi justamente no Sul que começaram a surgir sinais de fissura nesse desenho. Na veia O episódio de maior repercussão ocorreu em Criciúma e teve como protagonista o prefeito Vagner Espíndola, o Vaguinho, filiado ao PSD e, portanto, correligionário de João Rodrigues. Vale rememorar o contexto. Quiprocó Vaguinho foi escolhido candidato já em pleno período pré-eleitoral, ainda em 2024. Era o segundo nome apresentado pelo grupo político liderado por Clésio Salvaro, numa campanha extremamente pesada e conflagrada. Mudança Naquele momento, Ricardo Guidi rompeu com o PSD, ingressou no PL e recebeu apoio direto do governador Jorginho Mello. A disputa municipal ganhou contornos dramáticos quando o então prefeito Clésio Salvaro chegou a ser preso durante a campanha. Sem titubear Mesmo diante daquele cenário explosivo, Vaguinho manteve sua candidatura. E, paradoxalmente, a prisão de Salvaro acabou produzindo uma reviravolta eleitoral. O movimento gerou reação negativa contra Ricardo Guidi e acabou impulsionando Vaguinho, que ultrapassou o adversário e venceu a eleição. Marcante Posteriormente, Clésio Salvaro foi libertado, mas o ambiente político já havia sido profundamente marcado por uma campanha duríssima. Sem volta Jorginho Mello mobilizou toda a estrutura possível para tentar derrotar o PSD em Criciúma. Levou inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro para a campanha. Bolsonaro pernoitou na cidade. Força eleitoral Ainda assim, Vaguinho Espíndola, sustentado politicamente pelo peso eleitoral de Clésio Salvaro — liderança de enorme influência em Criciúma e em toda a região Sul —, acabou levando a melhor. Rota de colisão Mas bastaram poucos meses de administração para que a relação entre criador e criatura entrasse em rota de colisão. Salvaro quis continuar comandando politicamente a prefeitura. Vaguinho não aceitou assumir esse papel secundário. Desfecho O resultado foi inevitável: estremecimento, críticas públicas do ex-prefeito ao sucessor e uma clara sinalização de rompimento político. O déjà-vu O cenário lembra um episódio já vivido por Clésio Salvaro no passado. Impedido pela Justiça Eleitoral de disputar a prefeitura, ele elegeu seu vice, Márcio Búrigo, prefeito de Criciúma. Depois, os dois também romperam politicamente. Mais adiante, Salvaro retornou à disputa municipal e derrotou Búrigo quando este tentava a reeleição. Agora, o filme parece ganhar um novo roteiro. Alesc Clésio Salvaro é candidato a deputado estadual e deverá fazer uma votação expressiva. Mas o fato político relevante é outro: ele pode não contar com o apoio decisivo da máquina municipal de Criciúma. Bomba Foi nesse contexto que surgiu a declaração que sacudiu os bastidores políticos catarinenses. Durante a inauguração do terceiro trecho do contorno viário de Criciúma, Vaguinho afirmou que ninguém irá ouvi-lo falar mal do governador Jorginho Mello durante a campanha eleitoral. A frase Mais do que isso, o alcaide criciumense disse que a única coisa que teria a dizer ao governador seria: “muito obrigado”. A manifestação caiu como uma bomba dentro do PSD. A grande dúvida agora é saber quais serão os desdobramentos políticos dessa posição. Truculência João Rodrigues é conhecido pelo estilo truculento. Exigiu a expulsão de Topázio Neto e Paulinho Bornhausen, que não se submeteram aos seus intentos. E Vaguinho? Adotará neutralidade? Cruzará os braços na disputa estadual? Não trabalhará nem para Jorginho nem para João Rodrigues? Ou caminhará efetivamente para integrar o projeto de reeleição do governador? Constrangimento O detalhe político é ainda mais delicado porque João Rodrigues estava no Sul exatamente quando a declaração foi feita.
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