Fruto da cooperação técnica entre o Brasil e o país africano, o Programa tem formado profissionais da saúde desde 2024

A cooperação entre Brasil e Angola na área da saúde vem produzindo resultados que já podem ser observados nos hospitais angolanos. Lançado em 2024, o Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola tornou-se uma das principais iniciativas de cooperação Sul-Sul entre os dois países. Em apenas dois anos, mais de 800 profissionais angolanos participaram ou participam de formações em instituições públicas brasileiras, distribuídas por todas as regiões do Brasil, enquanto mais de mil profissionais também foram capacitados em território angolano.

A iniciativa reúne mais de 60 instituições formadoras brasileiras e oferece oportunidades em diferentes modalidades de qualificação, incluindo especializações, fellowships, residências, mestrados, doutorados, estágios, vivências técnicas e cursos presenciais, híbridos e a distância.

O Programa é conduzido, do lado brasileiro, pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores, em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, a HU Brasil e as instituições de ensino participantes. Em Angola, a coordenação cabe ao Ministério da Saúde, por meio da Unidade de Implementação do Projeto de Formação de Recursos Humanos para a Cobertura Universal de Saúde (UIP-PFRHS).

Durante missão realizada em Luanda, foram visitados hospitais e centros de saúde, e realizadas entrevistas a estes profissionais que realizaram parte de sua formação no Brasil e hoje atuam em diferentes especialidades da rede de saúde angolana.

Médica Radiologista – Instituto Angolano de Controlo do Câncer (IACC)

Médica especialista em Radiologia, Maria Calambe Cumba Gaspar realizou sua residência médica no Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2021, por meio da cooperação entre o INCA e o Instituto Angolano de Controle do Câncer (IACC), iniciativa que posteriormente deu origem ao atual Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola. Gaspar fez parte da segunda turma de intercâmbio entre os dois países. Atualmente atua no Instituto Angolano de Controle do Câncer (IACC), onde é responsável pela interpretação de exames de imagem, fundamentais para o diagnóstico e acompanhamento dos pacientes oncológicos.

A Radiologia é uma especialidade essencial para o diagnóstico do câncer. O médico radiologista interpreta exames como radiografias, tomografias, ultrassonografias e outros métodos de imagem, identificando alterações que orientam o diagnóstico, o estadiamento da doença e o planejamento do tratamento. Seu trabalho fornece informações indispensáveis para que a equipe multiprofissional tome decisões terapêuticas com maior precisão.

ABC: Conte um pouco sobre sua trajetória profissional e sua atuação no Instituto Angolano de Controlo do Câncer.

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: Sou médica especialista em Radiologia. Realizei minha residência médica no Instituto Nacional de Câncer, no Brasil, entre 2018 e 2021. Atualmente trabalho no Instituto Angolano de Controlo do Câncer, onde atuo na interpretação dos exames de imagem utilizados no diagnóstico e acompanhamento dos pacientes com câncer.

ABC: Como foi sua experiência de formação no Brasil?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: Foi uma experiência muito positiva. Gostei bastante da organização dos serviços, da metodologia de ensino e da dedicação dos professores. Sempre fomos muito bem acolhidos e recebemos apoio desde nossa chegada ao Brasil. Éramos sete médicos vindos de Angola e a comissão que nos recebeu nos ajudou muito, inclusive a conseguir residência naquela época, já que não havia ainda a modalidade de ficarmos hospedados no INCA. A residência proporcionou uma formação sólida e uma excelente experiência profissional.

ABC: Qual é o papel do médico radiologista no tratamento do câncer?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: O radiologista é responsável por interpretar os exames de imagem. Realizamos exames como a ultrassonografia e analisamos tomografias e radiografias produzidas pela equipe técnica, emitindo os laudos que auxiliam os médicos na definição do diagnóstico e da melhor conduta para cada paciente.

ABC: A senhora fez parte das primeiras turmas dessa cooperação entre o INCA e o IACC. Como vê a criação do Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: Fico muito feliz em ver essa iniciativa crescer. Eu diria para todos que terão essa oportunidade que vale muito a pena. Aprende-se muito, os professores são excelentes e muito pacientes. Quem vai ao Brasil retorna com uma boa bagagem para contribuir com os serviços de saúde em Angola.

ABC: Como foi retornar a Angola depois da especialização?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: Encontrei muitos desafios, mas também compreendi que o aprendizado não termina quando a residência acaba. É preciso continuar estudando, pesquisando, acompanhando as atualizações da especialidade e trocando experiências com outros radiologistas. Esse processo de aprendizado permanente faz parte da profissão.

ABC: O idioma e a proximidade cultural entre Brasil e Angola facilitaram sua adaptação?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: Facilitaram muito. Apesar das diferenças na forma de falar o português, adaptei-me rapidamente. No ambiente do INCA passei a utilizar naturalmente o português do Brasil, o que tornou a comunicação muito mais fácil e favoreceu meu aprendizado.

ABC: O que mais chamou sua atenção na metodologia de formação do INCA?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: A organização do programa. Durante a residência passamos por diferentes hospitais e serviços, o que nos permitiu conhecer realidades distintas e ampliar bastante nossa experiência. Essa diversidade contribuiu muito para minha formação como radiologista.

ABC: Que conselho deixaria para os profissionais angolanos que participarão do Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola?

Dra. Maria Calambe Cumba Gaspar: Aproveitem ao máximo essa oportunidade. Haverá desafios, mas eles fazem parte do processo de aprendizagem. Os professores são muito capacitados e querem ajudar. Com dedicação e empenho, o conhecimento adquirido no Brasil permitirá oferecer uma resposta cada vez melhor aos serviços de saúde e aos pacientes em Angola.