23 de agosto de 2026 Jefferson Santos Um vídeo eleitoral gravado nas proximidades do Morro Dona Edith, no bairro Velha Grande, em Blumenau, provocou forte repercussão nas redes sociais e manifestações de moradores e profissionais das forças de segurança. O conteúdo foi publicado por Felipe Barcellos, vereador de Florianópolis e candidato a deputado federal, e Tulio Pfuetznreiter, morador de Indaial e candidato ao Senado, ambos pelo recém-criado Partido Missão.
Os candidatos foram até o acesso à Rua da Comunidade, na região popularmente conhecida como “pé” do Morro Dona Edith, para abordar segurança pública, tráfico de drogas e atuação do poder público.
O problema apontado por quem conhece a realidade da região está em afirmações feitas no vídeo que foram diretamente contestadas por policiais e moradores, especialmente a alegação da existência de barricadas e de crianças participando delas armadas.
O Mesorregional também analisou as referências jornalísticas utilizadas na publicação e identificou que ao menos um dos casos apresentados pelos candidatos como argumento para a narrativa do vídeo não ocorreu no Morro Dona Edith.
No início do vídeo, os candidatos apresentam a região como um dos principais locais utilizados pelo tráfico em Blumenau. “Aqui é um dos principais pontos onde o tráfico se esconde em Blumenau, que está aumentando ano após ano em Blumenau”, afirmam.
Segundo eles, denúncias recebidas de seguidores teriam motivado a gravação. No vídeo apresentado, entretanto, não são exibidas estatísticas oficiais que demonstrem o alegado crescimento anual do tráfico na cidade. Em determinado momento, Felipe Barcelos afirma: “Aqui tem até barricada.”
Tulio Pfuetznreiter complementa: “Sim! Aqui não é Rio de Janeiro, aqui é Santa Catarina. Aqui crianças são cooptadas para o tráfico de drogas. Eles participam das barricadas e com armas nas mãos.”
A existência de tráfico de drogas e de operações policiais na região não é uma realidade desconhecida da imprensa ou das próprias forças de segurança. O ponto que provocou contestação foi a descrição de uma dinâmica envolvendo barricadas e crianças armadas como se fosse uma característica constatada no local.
O Mesorregional acompanha há anos ocorrências e operações policiais em Blumenau e não possui registros próprios de barricadas instaladas por organizações criminosas nas ruas da cidade nos moldes descritos no vídeo, tão pouco ali naquele local.
Alô, delegado cachorreiro, vote 144 para senador e 1414 para deputado federal. @Felipe Barcellos
A repercussão chegou a integrantes das forças de segurança. Um sargento da Polícia Militar de Blumenau publicou uma manifestação em suas próprias redes sociais classificando o conteúdo como exagerado. “Vídeo bem exagerado sobre Blumenau para fazer política. Não há ocorrência de barricadas e presença de arma de fogo não é rotina, mas exceção […] conteúdo é bem sensacionalista e feito por quem nada conhece do cenário”, escreveu o sargento Diego Maciel em sua publicação.
A crítica ganhou ainda mais relevância quando um policial civil que afirmou ter participado de operações realizadas naquela região respondeu diretamente à publicação dos candidatos. “Não fala besteira. Sou policial e participei dessas operações. Inclusive o delegado da época era o Egidio. Nunca teve barricada aí no morro. O que há sim é forte atuação do tráfico de drogas. Se for pra falar, falem a verdade.” enfatiza Michel da Divisão de Investigação Criminal (DIC).
O policial da DIC também reconheceu problemas sociais existentes na região. “Falta estrutura de habitação? Sim, sem nenhuma dúvida, mas o resto aí não é verdadeiro.”
As manifestações dos policiais são opiniões e relatos pessoais dos respectivos profissionais e não foram apresentadas como posicionamentos institucionais da Polícia Militar ou da Polícia Civil.
Outro trecho do vídeo chamou atenção. Felipe afirma: “Isso não sou eu que tô falando… já teve operação da polícia apreendendo mais de 25 armas de fogo e um milhão de reais em movimentações suspeitas.”
Para sustentar a afirmação, o vídeo utiliza uma chamada jornalística referente a uma ocorrência real. Entretanto, segundo o levantamento realizado pelo Mesorregional, o episódio citado não ocorreu no Morro Dona Edith.
Em outros momentos, os candidatos voltam a apresentar recortes de conteúdos jornalísticos, inclusive com marcas de veículos de comunicação, relacionando diferentes episódios à narrativa apresentada sobre a região.
Segundo as informações repassadas ao Mesorregional, não houve autorização de ao menos parte desses veículos para utilização das respectivas marcas no conteúdo político-eleitoral.
A publicação também direciona críticas ao atual prefeito de Blumenau, Egidio Ferrari (PL).
Os candidatos afirmam que operações policiais são realizadas há aproximadamente dez anos sem que o problema tenha sido solucionado. Durante o vídeo, Tulio utiliza a imagem do prefeito e o chama de forma pejorativa de “delegado cachorreiro”, atribuindo a ele responsabilidade pela ausência de solução para a situação descrita, além de utilizar o termo chulo para menosprezar ações de proteção animal.
A manifestação do policial civil que reagiu ao conteúdo, entretanto, acrescenta outro elemento ao debate: segundo ele, Egidio atuava como delegado em operações policiais realizadas naquela região.
Em outro momento, Felipe Barcelos endurece significativamente o discurso sobre segurança pública.
O candidato menciona que já teria sido processado anteriormente em razão de conteúdo semelhante produzido em Florianópolis e declara: “Vagabundo que vem para Santa Catarina tem que ter controle migratório […] ser mandado para outro lugar e, se vier pra cá, tem que ser preso ou morto pela Polícia Militar.”
A declaração mistura propostas relacionadas à circulação de pessoas dentro do território nacional com atuação policial. A livre locomoção no território brasileiro é uma garantia constitucional, enquanto o emprego de força letal por agentes de segurança está sujeito às hipóteses e requisitos previstos na legislação, não podendo decorrer simplesmente da origem geográfica de uma pessoa ou de sua entrada em determinado estado.
Felipe ainda fez uma promessa relacionada à destinação de futuras emendas parlamentares: “Eu faço uma promessa para vocês: R$ 10 milhões, do dinheiro que eu vou ter de emendas vai para a polícia poder matar muito vagabundo.”
O conteúdo também provocou reação entre moradores da região, que criticaram a forma como a comunidade foi apresentada.
Uma moradora escreveu: “A Velha Grande não é cenário para político de internet ganhar fama. Aqui moram famílias, trabalhadores e crianças que merecem respeito e condições dignas. Antes de falar da comunidade, conheçam a comunidade inteira.”
Outro internauta questionou especificamente a afirmação sobre as barricadas: “Muita mentira, porque nunca houve barricada […] Isso é sensacionalismo e politicagem para ganhar votos.”
Os comentários refletem as manifestações individuais dos usuários e não permitem, isoladamente, medir a opinião de toda a comunidade.
As críticas ao vídeo não significam negar a existência de tráfico de drogas ou problemas sociais na região do Morro Dona Edith.
Operações policiais já foram realizadas na área ao longo dos anos e a própria manifestação do policial civil reconhece a existência de forte atuação relacionada ao tráfico de drogas.
A controvérsia está, portanto, na maneira como a realidade foi apresentada e, principalmente, nas afirmações específicas sobre barricadas e crianças armadas, contestadas publicamente por profissionais que afirmam conhecer ou ter atuado diretamente na região.
Durante o levantamento realizado para contextualizar a história da região, o Mesorregional encontrou também um episódio com abordagem bastante diferente.
Em 2019, o 10º Batalhão de Polícia Militar, em conjunto com o então Departamento Estadual de Administração Prisional, atualmente inserido na estrutura da Polícia Penal, desenvolveu a chamada Operação Mãos Dadas.
A iniciativa promoveu uma ação de limpeza no morro com a participação de apenados do sistema prisional.
Na época, a iniciativa partiu do então comandante do 10º BPM, coronel Jefferson Schmidt, atualmente candidato a deputado estadual pelo PSDB.
A experiência vivida durante sua passagem pelo comando da Polícia Militar em Blumenau também integra relatos posteriormente reunidos na obra “O Comando da Confiança”, que aborda histórias, bastidores da segurança pública e experiências de sua trajetória à frente do batalhão.
O contraste entre os conteúdos mostra diferentes formas pelas quais segurança pública e comunidades socialmente vulneráveis podem aparecer no debate eleitoral: de um lado, candidatos utilizando denúncias e episódios policiais para sustentar críticas; de outro, registros históricos de ações realizadas diretamente no território.
Em período eleitoral, especialmente quando segurança pública e comunidades inteiras são utilizadas como elementos de campanha, a distinção entre fatos comprovados, opiniões políticas e afirmações ainda sem comprovação é fundamental para que o eleitor tenha condições de formar sua própria avaliação.
"@tulioteconta Alô, delegado cachorreiro, vote 144 para senador e 1414 para deputado federal. @Felipe Barcellos ♬ som original – Túlio De Amorim Pfuetzenreiter"

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